Rei do Baião, este título concedido à Luiz Gonzaga pode ser muito bem dividido em rei do nordeste, rei do Brasil, rei da linguagem nordestina ou rei da cultura brasileira. Afinal de contas, Gonzagão rodou todos os cantos do nosso país mostrando a poesia e a música de um povo que sempre encarou de frente diversos problemas. A seca, a pobreza e o descaso do governo com aquela terra e com aquele povo são só alguns. O garoto humilde de Exu – pequeno vilarejo de Pernambuco – encontrou na arte a melhor maneira de ganhar o mundo e fazer seu povo ganhar o Brasil.

 

O jovem Gonzaga e o sorriso que conquistou o Brasil
O jovem Gonzaga e o sorriso que conquistou o Brasil

 

O amor de Luiz Gonzaga pelo nordeste e o desejo de abrir os olhos, e ouvidos, de um país que, naquele momento, só enxergava o que era produzido da Bahia para baixo, foi traduzido em centenas de canções. Em Vozes da Seca, por exemplo, ele descreve com carinho o nordeste e o nordestino : “Afe Maria, o nordeste tão alegre, tão quente, tão bonzinho. E o povo rapaz tão sambudo que é, tão forrozeiro que é…”. Gonzagão também usava sua música para influenciar seu povo. Sensível e elegante que era, fez de Assum Preto um manifesto ecológico em favor do pássaro que teve um período crítico em sua vida. As pessoas acreditavam que se furassem os olhos do pobrezinho ele cantaria melhor, imagine como isso caía na alma de um poeta. Inteligente, usou a música para, pelo menos, diminuir essa atitude tão cruel. E assim nasceu Assum Preto, uma letra que, na melhor linguagem do homem do agreste, mostra a dor de um pássaro que não enxerga as belezas ao seu redor. “Tarvez por ignorança ou mardade das pió, furaro os óio do assum preto pra ele assim, ai, cantá de mio”, esse refrão embalado em um forró lento e convidativo mudou o modo de agir de muita gente na época e o assum preto ficou eternamente agradecido ao Rei do Baião.

 

O cantante assum preto, um eterno agradecido ao Rei do Baião
O cantante assum preto, um eterno agradecido ao Rei do Baião

 

O pai também ganhou espaço no universo musical de Luiz Gonzaga. Sanfoneiro de primeira, Januário era uma “homem tinhoso” e era bom respeitar o “cabra”  afinal, “O fole de Januário tem 8 baixos, mas ele toca em todos 8. Sabe de uma coisa? Luiz tá com muito cartaz! É um cartaz da peste! Mas ele precisa respeitar os 8 baixos do pai dele. E é por isso que eu canto assim! Luíz respeita Januário…” . A música, claro, foi outro sucesso e até hoje ela está gravada na nossa memória. E foi desta forma que o Rei do Baião homenageou o homem que desde cedo o incentivou a passar para outras pessoas, e gerações, a riqueza do nordeste e seu povo. Assim ele fez até 1989, quando foi tocar sua sanfona em outras esferas. Ao todo foram mais de 500 composições e 56 discos gravados, uma rica herança cultural deixada pelo Rei do Baião para a música brasileira, que teve em Gonzagão um dos seus grandes arquitetos.

 

Gonzagão e Januário : respeito pelos "8 baixos do pai"
Gonzagão e Januário : respeito pelos “8 baixos do pai”

 

Luiz Gonzaga tinha medo que sua música fosse esquecida,  já vem de longa data a fama da nossa memória curta. Mas graças a força da sua poesia, o respeito que vários artistas tinham – e tem – por ele, as inúmeras regravações de sua obra e sua maneira particular de enxergar as características do povo nordestino, Gonzagão e sua arte se tornaram atemporais e por isso ele está mais vivo do que nunca. 100 ou 200 anos depois ele vai ser sempre o Rei do Baião, aquele que uniu o sul e o norte e mostrou que toda essa diversidade é que faz o povo brasileiro ser único e especial.

 

Esquecer essa alegria? Impossível
Esquecer essa alegria? Impossível!

 

Pra encerrar nosso papo no Link Sonoro a gente confere a faixa Vida de Viajante com Gonzagão e o filho Gonzaguinha, talvez a música que melhor descreva o estilo do homem que viajou durante toda vida por esse Brasil para ficar sempre perto do povo que ele tanto amava.

Até a próxima!

 

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