Em 1972 Caetano Veloso armagava um exílio forçado em Londres havia mais ou menos 3 anos. A ditadura era um vírus que corroia as entranhas da América Latina e o Brasil não ficou de fora, foi contaminado por uma linha de pensamento cruel e nada democrática. Artistas, estudantes, intelectuais, jornalistas e cidadãos comuns viram seu direito de falar, pensar, ouvir e ver por si próprios e o governo – no caso os militares – emprestava para o país a sua versão dos fatos, o que ele acreditava ser ou não o certo, adequado ou apropriado. Numa realidade como essa o ato de criar para qualquer artista se tornou uma guerra sem tréguas contra a famosa “censura”. E na maioria das vezes ela ganhava, é só coferir a lista de exilados, desaparecidos, torturados e tantas outras proezas praticadas pelos “mandantes”da época. Caetano Veloso não ficou de fora e Londres foi o destino de sua temporada fora do país, dele e de mais tantos outros.

 

Na terra da Rainha era tudo bem diferente

 

O cenário da terra da Rainha não tinha muito a ver com o cotidiano de Caetano. Literalmente o verde-azul-amarelo foi trocado pelo cinza, o calor dos trópicos pelo frio e fog londrino e a amada Bahia se tornou um porto distante e inacessível. Mas a mente de Caetano superava qualquer obstáculo criativo e depois de uma viagem rápida ao Brasil, e já de volta a Londres, o moço registrou um de seus álbuns mais geniais. Em um trabalho orgânico e permeado pela espontaneidade, Caetano Veloso mistura o elemento afro-brasileiro com o experimentalismo, canções de Monsueto Neves com composições que transitam entre o inglês e o português e trechos da cultura de um Brasil amplo e diverso.

 

Transa : um verdadeiro transe sonoro

 

Quarenta anos depois Transa é um disco que nos pega a cada audição. Impossível não deixar se embriagar com faixas como Nine Out Of Ten, It’s a Long Way, Triste Bahia, You Don’t Know Me e sua releitura para Mora Na Filosofia.  Caetano oferece um verdadeiro transe sonoro em apenas sete faixas, Portobelo Road traz o reagge para perto da Bahia, o som nordestino para perto do blues  e os Beatles surgem em meio a filosofia de Monsueto. Isso tudo sem falar na produção e arranjos de Transa, os amigos Jards Macalé, Tutti Moreno, Moacyr Albuquerque e Áureo de Souza somam suas viagens sonoras aos voos de Caetano. Resultado : por mais minimalista e experimental que seja, cada instrumento está no lugar e hora certos, sem conflitos e exageros.

 

Jards Macalé, presença fundamental em Transa

 

Pode ser pouco provável, mas se você ainda não escutou Transa nos últimos 40 anos, pode estar perdendo uma chance e tanto de se aprofundar nas entranhas criativas de Caetano Veloso. Vale correr atrás do álbum e reservar um tempinho só pra ele. E quer saber mais de mano Caê? É só acessar www.caetanoveloso.com.br .

Aqui no Link Sonoro você confere a faixa Nine Out Of Ten.

Até a próxima!